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Milhares de berlinenses tomaram o Muro em 9 de novembro de 1989

O isolamento que irrompeu após a queda do Muro

Aniversário de 30 anos da queda do Muro de Berlim é momento para refletir erros cometidos durante o processo de Reunificação da Alemanha. Leste ainda convive com insatisfação e enfrenta renascimento da extrema direita.

Berlim comemora no próximo sábado (09/11) os 30 anos da queda do Muro, que dividiu a cidade por pouco mais de 28 anos e se tornou um dos símbolos da Guerra Fria. Sem dúvida há muito o que celebrar, mas essa comemoração deveria vir acompanhada de uma reflexão mais profunda sobre os erros cometidos no processo de Reunificação da Alemanha e seus impactos.

Enquanto Berlim e cidades ao redor vivem um período de expansão e crescimento econômico, basta andar uma hora de trem para perceber que regiões não tão longe da capital enfrentam estagnação e estão entre as mais pobres do país.

Para muitos que moravam nos antigos estados que faziam parte da República Democrática Alemã (RDA), a Reunificação significou tempos difíceis. Ao conversar com pessoas que cresceram e viveram boa parte da vida na Alemanha Oriental, não é raro ouvir frases como “com o fim da RDA pudemos ter mais liberdade, mas em compensação a vida ficou mais dura” ou “antigamente havia vaga nas creches para todas as crianças” – a escassez de vagas em creches é um dos atuais problemas enfrentados pelo país.

A liberdade tão sonhada veio acompanhada pelo colapso econômico e evasão populacional. Muitos viram seus vilarejos sendo aos poucos relegados ao abandono, com o fechamento do comércio local e de estações de trem, além da fuga da população mais jovem. Outros perderam toda uma carreira conquistada ao longo de anos.

Ao passear de bicicleta por essas regiões, é fácil perceber o isolamento dessas localidades, que muitas vezes parecem até vilarejos fantasmas sem uma viva alma andando pelas ruas. De vez em quando, nesses passeios me deparo com casas ou veículos decorados com objetos suspeitos que glorificam um passado sombrio que a Alemanha jamais esquecerá, cuja memória é mantida viva, sobretudo, para evitar que esse terror volte a se repetir.

Apesar desses esforços de memória, 30 anos depois da queda do Muro e quase 75 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial e do regime nazista, o país, principalmente o Leste alemão, enfrenta um renascimento da extrema direita, carregada com posições antissemitas e xenófobas.

Há pouco mais de uma semana, na Turíngia, os populistas de direita da sigla Alternativa para Alemanha (AfD) – que lançou como seu principal candidato o ultradireitista Björn Höcke, conhecido por sua posição anti-imigração e por defender uma reversão da cultura de memória na Alemanha – conquistaram o segundo lugar nas eleições estaduais com 23,4% dos votos. Em localidades rurais, o apoio ao partido bateu recordes, chegando a quase 63% dos votos num vilarejo.

No início de setembro, a AfD teve um crescimento significativo nas eleições regionais da Saxônia e de Brandemburgo, ultrapassando siglas tradicionais e ficando em segundo lugar em ambos os estados do Leste.

Muitos argumentam que o abandono sentido por essas populações seria o cerne desse problema. Sem dúvida isso pode alimentar revolta, mas a questão vai além: o isolamento desses povoados contribui, e muito, para a aversão ao que é diferente. Somado a isso, a extrema direita soube muito bem identificar essa fragilidade e utilizá-la em benefício próprio, direcionando, com sua retórica, essa insatisfação ao que vem de fora e fomentando o ódio.

Os populistas não apresentam soluções reais para os problemas enfrentados por esses povoados. Para os extremistas de direita, se os estrangeiros fossem mandados embora do país, o mundo novamente seria lindo e todas as dificuldades seriam superadas do dia para a noite. Muitos estão tão desiludidos que não percebem quão vazias são essas promessas.

Tenho a impressão de que quanto menos uma cidade convive com o diferente, maior é a tendência de temer aquilo que não é igual ao que estão acostumados. Nas últimas décadas, a cidade do Muro superou a divisão que a marcou por tantos anos e se tornou um paraíso cosmopolita e da diversidade, apesar de enfrentar também problemas pontuais com a extrema direita.

Por outro lado, a queda dessa barreira acentuou a exclusão ou o sentimento de exclusão em algumas partes do Leste. A integração – para usar uma palavra que os alemães adoram ao falar sobre estrangeiros – desses excluídos, que precisa passar pelo reconhecimento dos erros cometidos no processo de Reunificação, é o novo desafio para os próximos anos.

A Alemanha aprendeu muito bem a reconhecer as atrocidades que cometeu durante o regime nazista, mas ainda peca ao tratar das escolhas feitas quando voltou a ser um país só na década de 1990 e optou por rejeitar tudo o que havia sido construído durante a RDA, além de desprezar a antiga sociedade civil do Leste, o estilo de vida e conquistas dos alemães orientais.

Clarissa Neher é jornalista da DW Brasil e mora desde 2008 na capital alemã. Na coluna Checkpoint Berlim, escreve sobre a cidade que já não é mais tão pobre, mas continua sexy.

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