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Na temporada 2018/2019, apenas um terço das partidas da Bundesliga contaram com a casa cheia

O maravilhoso mundo da Bundesliga passa longe do torcedor comum

Do ponto de vista econômico, a Bundesliga é só alegria, com recordes de faturamento a cada temporada. Mas elevados preços dos ingressos e desigualdade na distribuição das cotas de TV entre clubes desagradam torcedores.

Durante quase duas décadas, mais precisamente de 2002 a 2017, o futebol alemão em geral, e a Bundesliga em particular, era considerado um produto premium, que, ano após ano, conquistava cada vez mais consumidores. Estádios lotados, transmissões primorosas pela TV, final da Champions League 2013 entre dois clubes alemães e conquista da Copa em 2014 foram alguns dos fatores que fizeram crescer a imagem do futebol “Made in Germany” no mundo inteiro.

A comercialização desse produto anda a todo vapor. Os direitos televisivos foram negociados até 2021 pela soma anual de 1,15 bilhão de euros, quase o dobro do contrato anterior. Do ponto de vista econômico, a Bundesliga é só alegria. Recordes de faturamento são batidos a cada temporada.

Entretanto, passada a euforia dos últimos anos, começam a aparecer as primeiras rachaduras no até então sólido edifício da Liga Alemã de Futebol. O carro-chefe da boa imagem do futebol alemão – a presença massiva de público nos estádios – aparece pela terceira temporada consecutiva em tendência decrescente.

Na temporada 2016/2017, de um total de 306 jogos, as arenas ficaram completamente lotadas em 143 (46,7%). Já em 2018/2019 apenas 102 (33,3%) partidas contaram com a casa cheia. Nota-se também um decréscimo na média de público. A atual temporada tem uma média de 40.500 espectadores por jogo. É o menor público por partida dos últimos dez anos.

O técnico Steffen Baumgart, do recém-promovido Paderborn, não tem papas na língua quando fala sobre a queda de público nos estádios: “Estamos construindo uma bolha sem contato com a realidade do torcedor comum. Começa pelo preço do ingresso, que custa em média 50 euros. Uma família com quatro pessoas, somando ingressos, salsichas, cervejas e refrigerantes, vai gastar no mínimo 250 euros. Para um simples mortal, vai ficar inviável frequentar o estádio.”

A única forma de se pagar menos é adquirir um ingresso válido para as 17 partidas do campeonato que o time vai jogar em casa. Sai em torno de 30% a 40% mais barato, mas é pago à vista. No Signal Iduna Park, casa do Borussia Dortmund, o assento numerado mais barato para toda temporada custa 405 euros.

Praticamente não há uma rodada em que não haja protestos das torcidas organizadas contra os cartolas da Bundesliga – e isso em todas as divisões. Há muitas queixas dos torcedores. Eles alegam que dias e horários dos jogos são estabelecidos de acordo com a conveniência da TV e que não é levada em conta a rotina do trabalhador frequentador dos estádios. Reclamam também dos altos preços dos ingressos, além da falta de diálogo com a classe dirigente do futebol alemão.

Tudo isso leva a um alheamento entre torcedores e cartolas. Há um estranhamento por parte do cidadão comum em relação ao atual futebol profissional altamente mercantilizado, no qual alguns poucos grandes clubes não sabem mais o que fazer com tanto dinheiro, e a maioria dos pequenos luta pela mera sobrevivência, sem recursos para pagar o técnico dos times de base ou comprar novos uniformes.

Em sua entrevista ao t-online.de, o técnico Steffen Baumgart também deixou claro que é preciso fazer uma revisão nos critérios de fixação dos valores das cotas referentes aos direitos televisivos: “Um clube pequeno como o Paderborn, que acabou de subir à primeira divisão, ao se deparar com a parte que lhe cabe no rateio desses valores, imediatamente percebe que não terá condições de competir no mercado em busca de reforços.” É verdade. O Paderborn recebeu 26 milhões de euros, enquanto o Bayern foi agraciado com 68 milhões.

A desigualdade econômica na distribuição das cotas de TV contribui para que os clubes fortes continuem cada vez mais fortes, e os fracos, cada vez mais fracos. A tendência é que a diferença entre os assim chamados grandes e pequenos aumente cada vez mais, a não ser que a Bundesliga reveja seus critérios na fixação dos valores a que cada clube tem direito.

A Premier League tem um sistema mais equitativo e poderia ser um ótimo exemplo a ser seguido pelos dirigentes do futebol alemão. Quem sabe eles se animam e fazem as mudanças necessárias?

Gerd Wenzel começou no jornalismo esportivo em 1991 na TV Cultura de São Paulo, quando pela primeira vez foi exibida a Bundesliga no Brasil. Desde 2002, atua nos canais ESPN como especialista em futebol alemão. Semanalmente, às quintas, produz o Podcast “Bundesliga no Ar”. A coluna Halbzeit sai às terças. Siga-o no TwitterFacebook e no site Bundesliga.com.br

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