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Tim Berners-Lee lançou plano para proteger a internet de abusos

O sonho de uma internet do bem

Governos devem combater abusos da rede com leis mais rígidas, propõe “pai da World Wide Web”, Tim Berners-Lee. A intenção pode ser boa, mas não surtirá efeito, por motivos técnicos e humanos, opina Konstantin Klein.

A “torre de marfim” é a metáfora de um lugar espiritual de reclusão e intocabilidade em relação ao mundo. Essa frase – há de se admitir – foi copiada literalmente da Wikipédia alemã, fonte reconhecida de sólido conhecimento superficial na internet. E essa proverbial torre é frequentemente usada, tanto no jornalismo quanto fora dele, como metáfora para o refúgio mental de cientistas alheios ao mundo.

E assim estariam juntos todos os componentes necessários – ciência, internet, alheamento ao mundo – para refletir sobre a ideia que Tim Berners-Lee apresentou no Fórum de Governança na Internet (IGF) em Berlim: a iniciativa para uma rede melhor, o Contrato para a internet. Mas vamos por partes.

A internet é mais antiga do que a maioria dos internautas pode imaginar. O conceito de conhecimento e pensamento em rede remonta às ideias do engenheiro e consultor presidencial Vannevar Bush, da década de 1940. A implementação como uma rede interconectada de servidores remonta à década de 1960, e é uma filha ilegítima – alguns diriam “bastarda” – de cientistas e militares.

Ambos, tanto a concepção como a arquitetura, são o motivo pelo qual se tornaram necessários eventos como o IGF e a Berners-Lee Initiative, mas também são culpadas por os efeitos positivos da iniciativa de Sir Tim não poderem ir de uma expressão de boa vontade.

Quem sabe isso melhor do que ninguém é o próprio Berners-Lee. Dos seus trabalhos é originada a World Wide Web, a parte da web que agora percebemos como “a internet”. Sua ideia original – e aqui entra novamente a torre de marfim do primeiro parágrafo – era a resposta à pergunta sobre como seus colegas de pesquisa da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern) poderiam trocar livremente suas ideias e resultados, sem entraves de canais e hierarquias oficiais. Portanto as primeiras pessoas na WWW eram mais motivadas por interesses comuns do que por interesses diferentes – não necessariamente o tipo de sociedade que encontramos hoje nas mídias sociais e em outros lugares da web.

“Se não agirmos agora, juntos, para proteger a web daqueles que exploram, dividem e prejudicam, corremos o risco de ter de abrir mão de seu potencial para o bem”, afirmou Berners-Lee em sua proposta de contrato. Pena que não haja possibilidade técnica de impedir os perpetradores de fazer essas coisas e, acima de tudo, de influenciar.

Isso é garantido pela herança militar da internet. Por razões de segurança operacional, ela foi projetada como uma rede “inquebrável”, mesmo no caso de uma guerra nuclear: uma das funções básicas da internet é que ela sempre guiar seus usuários para as informações que eles procuram, driblando interrupções, barreiras e bloqueios.

Essa é a razão por que países como Rússia e China precisam investir muito esforço técnico para impedir seus cidadãos de acessarem informações malquistas do exterior e, mesmo assim, nunca têm 100% de sucesso – graças às tecnologias disponíveis como redes privadas virtuais (VPN) ou Tor. A “solução iraniana” de simplesmente desconectar o país inteiro da rede não é uma opção viável para atores globais num mundo conectado.

O problema não é que existam poucas regras efetivas para uma rede melhor. E sim a natureza humana, que, ingênuo, com preguiça de pensar e movido por preconceitos, se deixa levar por qualquer porcaria, contanto que a apresentação seja tentadora o suficiente. As redes sociais reconheceram isso em todo o mundo e utilizam isso para o bem de seu próprio faturamento ou no interesse de seus senhores e mestres políticos.

Participantes do IGF, como os membros da Youth IGF ou o CEO da Siemens, Joe Kaeser, tocam no ponto nevrálgico quando exigem – além de uma proteção aprimorada de dados sensíveis – um direito genérico e viável à transparência na coleta e uso desses dados. A experiência dos últimos anos mostra, no entanto, que os conhecimentos adquiridos, uma vez disponíveis, passarão ao largo dos fãs das teorias da conspiração e da agitação da web. Porque os fatos, afinal, são tão chatos.

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