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Método que faz uso de inteligência artificial permite, com base na análise do sangue, predizer se uma pessoa vai ganhar peso caso não mude seus hábitos.

Inteligência artificial olha seu sangue e diz se você vai engordar

Se você não mudar…

Pesquisadores da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) desenvolveram um programa de computador que permite identificar, com base na análise de moléculas do plasma sanguíneo, indivíduos com maior risco de ganhar peso e desenvolver doenças associadas à obesidade.

“O exame revela, com cerca de 90% de precisão, se uma pessoa vai ou não ganhar peso caso nenhuma intervenção seja feita. Mostra ainda se há risco de desenvolver doenças como diabetes, hipertensão e dislipidemia. É uma ferramenta importante, pois possibilita aos profissionais de saúde orientar mudanças no estilo de vida antes mesmo que o problema se instale,” explicou o professor Rodrigo Ramos Catharino.

O programa combina ferramentas de metabolômica (estudo do conjunto de metabólitos em amostras biológicas) e inteligência artificial (aprendizado de máquina). Para treinar o programa a reconhecer um padrão associado ao ganho de peso, foram usados dados obtidos por meio da análise do plasma sanguíneo de 180 pessoas. Metade dos voluntários incluídos no estudo era eutrófica (com índice de massa corporal dentro da faixa considerada normal) e os demais apresentavam grau variado de sobrepeso e obesidade.

Indicadores de risco de engordar

Ao todo, 18 metabólitos foram identificados como biomarcadores de processos metabólicos que favorecem o acúmulo de gordura no organismo. Desses, cinco apresentaram potencial de predizer o ganho de peso.

“A prostaglandina B2 e o carboxi-leucotrieno B4 são dois metabólitos do ácido araquidônico [ácido graxo da família do ômega-6] conhecidos por participar de processos inflamatórios, atuar no recrutamento de células para o sítio de inflamação e induzir a produção de espécies reativas de oxigênio [que em excesso prejudicam o funcionamento das células],” contou a pesquisadora Flávia Luísa Dias-Audibert. “Outras duas moléculas identificadas foram argininosuccinato e diidrobiopterina, envolvidas no ciclo do óxido nítrico e marcadores da produção de radicais livres.”

Segundo a pesquisadora, a combinação desses biomarcadores sugere que, em indivíduos acima do peso, ocorre uma retroalimentação da cascata inflamatória no organismo. “Esse achado vai ao encontro de diversos estudos que descrevem a inflamação crônica de baixo grau como um dos processos deletérios ativos em uma condição de excesso de peso,” disse.

O quinto biomarcador apontado como preditor foi o ácido carboxi-metil-propil-furano propanoico (CMPF), relacionado com disfunção nas células produtoras de insulina no pâncreas e com o desenvolvimento de diabetes. “Considerando que no grupo estudado havia indivíduos diabéticos, é possível sugerir que esse marcador seja o link entre o ganho de peso e o diabetes,” disse Flávia.

Técnica acessível ao SUS

O teste pode ser feito com uma amostra de sangue, que deve ser analisada em um espectrômetro de massas. O equipamento revela todos os metabólitos presentes no fluido corporal. Esse conjunto de moléculas retrata os diversos processos metabólicos ativos no organismo.

“O programa busca a presença dos cinco metabólitos que funcionam como biomarcadores com potencial de predizer o ganho de peso. Um deles, quando presente na amostra, indica que o paciente tende a desenvolver diabetes caso se torne obeso,” contou Catharino.

Os pesquisadores disponibilizaram o código-fonte do programa em sistema de software livre, o que significa que qualquer interessado pode baixá-lo. Segundo Catharino, qualquer centro de saúde que tenha acesso a um espectrômetro de massas pode fazer uso da metodologia.

“Trata-se de uma técnica barata e acessível até mesmo ao Sistema Único de Saúde. Basta um único espectrômetro de massas na rede, que pode atender a vários hospitais e ambulatórios,” disse o pesquisador.

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